
MUITO PRAZER EM CONHECER, IRMÃ.
Naquele tempo, tínhamos mais ou menos a mesma idade, entre sete e nove anos. Foi quando nossos pais se mudaram para o Bairro dos Girassóis. Luizinha morava bem perto de minha casa, mesma rua, na casa da esquina. Chegados no Girassóis, nossos pais logo fizeram amizade. Isso facilitou que desenvolvêssemos, eu e Luizinha, um relacionamento agradável. Eu estudava no colégio das freiras, o mais conceituado da cidade, Colégio das Mercês. Ela estudava no Lyceu Paraibano, à época colégio público bastante respeitado.
Desde adolescente, lembro que Luizinha dizia ter um sonho: ser atriz de teatro ou de cinema. Sua dicção era perfeita, tinha trejeitos de quem estava sempre
Eu era católica praticante por influência de meus pais. Conhecia de cor e salteado os mandamentos e os sacramentos, os pecados mortais e veniais. Conhecia e praticava as virtudes teologais. Meu sonho desde menina era um dia me tornar freira. Sonhava ser madre superiora de algum colégio europeu, francês de preferência. Je suis soeur Letice De Lumière. Imaginava-me falando francês com desenvoltura e delicadeza.
Já Luizinha, além de querer ser atriz, sonhava em viajar, conhecer Cuba, Moscou, Pequim, interagir com pessoas de paises comunistas. Estudava inglês e russo. Muito nova ainda, Luizinha já participava de movimentos sociais e políticos.
Pertencente à Congregação das Filhas de Maria, eu fazia parte de grupos de oração e estudos bíblicos. Atuava nos movimentos catequéticos de minha igreja – Igreja de São Geraldo dos Abandonados. Imaginava como seria o dia de ingressar numa comunidade conventual, vestir hábito de noviça, cumprir todos os processos e rituais até me tornar freira, finalmente Soeur Letice De Lumière.
Terminados seus estudos no Lyceu Paraibano, Luizinha viajou para o sul do país. A partir de então, passei muito tempo sem notícias suas. A princípio correram rumores de que esteve presa, algumas pessoas diziam que tinha se casado no Canadá com um alto figurante do Itamaraty. Com o passar do tempo, ninguém falou mais nada e Luizinha caiu no esquecimento.
Depois que conclui meus estudos no Colégio das Mercês, viajei para Fortaleza onde estudei e me formei em Teologia numa universidade particular. Um dia, fui convidada para assessorar a diocese em seus assuntos catequéticos. Foi então que conheci o seminarista Antônio Leandro. Culto, falando mais de uma língua estrangeira, sensível, músico compositor, o seminarista me chamou a atenção. E que delicadeza. Resumindo, o seminarista tocou minhas mãos, disse que eu era bonita, que eu tinha sensibilidade. Disse que Deus tinha projetos para mim que ele, o seminarista, adivinhava. Beijou-me o rosto, fez-me tocar seu coração com as pontas de meus dedos. A partir daí, os planos de me tornar freira despencaram de ladeira abaixo. Antônio Leandro já não foi mais o mesmo seminarista. Para encurtar a história, hoje temos filhos, netos, Antônio Leandro é meu marido e é chefe do Departamento de Línguas Estrangeiras na Universidade Federal do Ceará.
Esta semana, tive uma surpresa. O telefone tocou, uma voz feminina falou no outro lado: Tudo bem, Letice? Aqui quem fala é sua amiga, a Luizinha. Você se lembra de mim? Como não lembrar, Luizinha, que surpresa. Quanto tempo. Você está no Brasil, Luizinha? Claro, Letice. Estou trabalhando aqui em Parahyba. Ah, Luizinha, pensei que você estivesse em algum país do Leste Europeu. Naqueles tempos do Lyceu, todos diziam que você era comunista. Ah, Letice, a vida dá muitas reviravoltas e cambalhotas. Tanta coisa mudou em minha vida, tanta coisa. E você, Letice? Lembro que você queria ser freira, era tudo que seus pais também queriam. Afinal, Letice, você ingressou em alguma ordem religiosa? Que nada, Luizinha. Sou casada, meu marido é ex-seminarista, temos uma porção de filhos, já temos netos. Mas, me conta, Luizinha, o que você anda fazendo, trabalhando em que? Ah, Letice. Se eu contar, você não vai acreditar. Lembra que eu era comunista, participava de movimentos clandestinos e meu sonho era ver a revolução comunista no Brasil? Você se lembra que eu queria ser atriz? Pois, prepare-se para ouvir a novidade: Eu hoje sou freira missionária da ordem de Santo Agostinho, aquele santo dos desvalidos. Até meu nome foi trocado, que era para me desvincular de meus antigos sistemas de vida. Hoje não me chamo mais Luizinha Rezende. Hoje, sou Irmã Maria Valéria e, além de freira, sou escritora, participo do Clube do Conto e faço trabalhos em comunidades carentes, como voluntária. Ao ouvir tais palavras no telefone, com aquela antiga força de dicção, eu me comovi. Respirei fundo e tudo que pude responder foi Muito prazer, Irmã Valéria. Deus te abençoe.
Dôra Limeira
(Texto apresentado em reunião festiva do Clube do Conto, na casa do escritor Ronaldo Monte, sobre o tema “Valéria”, para festejar o aniversário de nossa escritora Valéria Rezende, no dia 8 de dezembro de 2007.)
Nenhum comentário:
Postar um comentário